Encontro com a invenção, de Elisa Lucinda

Flávia Fania Klippel

O romanceiro Encontro com a invenção, de Elisa Lucinda, publicado em 2024, foi escolhido por retratar como um personagem ficcional pode impactar a vida de quem o criou. A sensibilidade e a afeição que envolvem a relação entre criador e personagem foram determinantes para a apresentação dessa obra no seminário da disciplina de Literatura do Espírito Santo. Esse tema mostra-se relevante por exaltar a potência da literatura e de seus elementos ficcionais. Ademais, o livro é construído em forma de poemas que narram uma história de romance, o que contribui para cativar a sociedade brasileira à leitura de livros de poesia, os quais, muitas vezes, são esquecidos nas prateleiras por serem considerados irrelevantes ou incompreensíveis.

Elisa Lucinda é uma escritora nascida em Cariacica, em 1958. Formou-se em jornalismo, mas atua, principalmente, como artista. Lucinda é uma das figuras que sustentam e enriquecem a literatura capixaba (Aidar, 2023). Sua trajetória de estudos e formação em diversas áreas artísticas contribuiu para a singularidade de sua escrita. Além disso, sua vivência no território capixaba, durante um período de sua vida, possibilitou inspirações provenientes da região, que passaram a integrar, ainda que de forma implícita, alguns traços e escolhas presentes em suas obras.

Lucinda não se limita a explorar uma única perspectiva ao desenvolver seus livros. Sua atitude para com as questões sociais também é destacada de forma criativa em conjunto com os temas principais das obras publicadas. O seu apoio aos grupos de mulheres negras, que manifestam suas indignações por desamparos e lutam por seus direitos, é transformado em ações na literatura por Lucinda (Magalhães et al., 2020). Assim, ela traz outras possibilidades que mostram a realidade do país em que ainda persistem injustiças e desigualdades, incentivando leitores a estarem conscientes dos problemas atuais que envolvem a sociedade brasileira e abrindo um espaço para refletir sobre esses assuntos que não têm uma notoriedade como deveriam.

Ao pesquisar sobre sua biografia, observa-se que um fato vivenciado por Lucinda, e compartilhado por muitas outras pessoas, refere-se à precariedade de cursos de formação voltados ao incentivo do meio artístico e literário no estado do Espírito Santo (Aidar, 2023). No estado, ganham destaque, majoritariamente, cursos que atendem às demandas do mercado de trabalho. Dessa forma, Lucinda, assim como muitos outros artistas, desloca-se para estados que oferecem incentivo à construção de uma carreira, pautada na afinidade com a área artística.

O livro de poesia Encontro com a invenção tem como foco principal apresentar o personagem ficcional Vítor em sua jornada de permanência na realidade de sua criadora até seu retorno ao mundo literário. Sua presença transforma o eu lírico, pois todos os seus pensamentos passam a se centrar em Vítor, considerado seu amado e parte constitutiva de seus desejos, afetando-a profundamente em seu íntimo (Lucinda, 2024).

Segundo Lucinda (2024), em um dos poemas, o eu lírico assume o papel de Gepeto e remete ao criador de Pinóquio para sustentar a ideia de que transforma um personagem fictício, antes estático, em um ser que ganha vida. O eu lírico observa sua criação tomar forma e agir na realidade e, embora parta de seus desejos e anseios, as decisões de Vítor e suas características distanciam-se dessas origens, o que permite que ele não seja controlado pelo eu lírico. Além disso, Lucinda constrói, ao longo dos poemas, a analogia de que a vida se assemelha a um jogo de baralhos, no qual as cartas são reveladas diariamente, de acordo com as decisões tomadas. No entanto, o contato com Vítor faz com que as cartas sejam inesperadas, retirando o eu lírico de sua comodidade rotineira. A partir dessa incerteza, ela entra em uma turbulência que mistura a realidade com elementos do mundo imaginário e tenta não ser impactada; contudo, esse efeito torna-se inevitável ao se encontrar com Vítor, o que a leva a transpor tais sentimentos.

Lucinda escreve os poemas do livro de modo que o próprio formato da obra seja essencial para produzir o efeito pretendido, relacionado ao conflito entre o real e o imaginário. Assim, a obra de Lucinda (2024) apresenta acontecimentos da sociedade brasileira, como a greve dos caminhoneiros e o período em que Temer assumiu a presidência. Além disso, insere em sua narração poética nomes consagrados da música brasileira, como Djavan, Vítor Ramil e Mônica Salmaso, bem como elementos naturais que remetem ao território capixaba, como Itaúnas. Esses recursos potencializam a aproximação do leitor com a obra, partindo de uma realidade compartilhada e, com a chegada de Vítor, representante do imaginário e do literário, esse encontro torna-se concreto para aqueles que testemunham a narrativa.

Embora os poemas do livro não apresentem uma regularidade métrica característica dos poemas tradicionais, Lucinda constrói ritmo e rima por meio da fragmentação da narrativa. A autora não rejeita totalmente as características do gênero poético; ao contrário, estrutura a narrativa nesse formato e se apoia em figuras de linguagem, como a metalinguagem, que desempenha um papel importante ao expressar o próprio processo de escrita dos poemas e o envolvimento de Vítor entre o mundo literário e a realidade.

Nessa perspectiva, o personagem ficcional Vítor alcança o íntimo do eu lírico, que se encontra imerso em uma rotina marcada por acontecimentos previamente estabelecidos. Essa circunstância intensifica a revelação provocada por seu escape do mundo irreal, tornando a maior parte dos encontros com Vítor conturbada, sobretudo pela presença de vestígios que pertencem ao universo do personagem. Dessa forma, o eu lírico é conduzido a sensações novas e tenta desviar-se delas; no entanto, passa a lidar com uma força impossível de ser ignorada.

Lucinda explora as realizações de um personagem fictício e, posteriormente, permite que o leitor reflita sobre suas próprias experiências com personagens como Vítor, que despertam uma profunda afinidade, tanto positiva quanto negativa. Desde a infância, é comum que o contato com o mundo imaginário se manifeste por meio da criação de um “amigo imaginário” ou da corporificação de invenções em brinquedos, que passam a “ganhar vida” ao transformar a realidade de quem com eles se envolve. Ademais, as produções cinematográficas também constituem meios de apresentar personagens que partem do desconhecido e passam a sensibilizar um público, convidando esse ser irreal a fazer parte de sua vivência.

Embora o eu lírico discorde da ideia de que Vítor representa um amor platônico, mesmo sem utilizar palavras que afirmam explicitamente o contrário, observa-se um fluxo de sensações que não ocorreria se esse sentimento fosse, de fato, platônico. Suas atitudes são transformadoras na vida de quem ama, criando-se uma intimidade que não se circunscreve às definições de um amor platônico.

O encontro com Vítor promove uma reflexão sobre as contribuições que o mundo imaginário oferece às pessoas. Em algumas situações, esse contato com a literatura, ao explorar a criatividade, sustenta esperanças e expectativas que, por vezes, não são encontradas no mundo real. Não obstante, como nos poemas de Lucinda, percebe-se a busca por Vítor em figuras do mundo real, por meio de características que se assemelham às dele, construídas a partir de sua criadora. Assim, o eu lírico apresentado no livro tenta manter Vítor em seu mundo, por ser uma figura essencial que dá vida ao próprio eu lírico, movendo-o em uma trajetória de encontros que o fortalece como sujeito.

Referências

AIDAR, Laura. Elisa Lucinda. eBiografia, 11 jul. 2023. Disponível em: https://www.ebiografia.com/elisa_lucinda/ . Acesso em: 21 nov. 2025.

LUCINDA, Elisa. Encontro com a invenção. Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2024.

MAGALHÃES, Dayane Soares. et al. ELISA LUCINDA ENTRE O VERBO E O NÃO VERBAL: AFIRMAÇÃO E RESISTÊNCIA DE UMA MULHER NEGRA: AFIRMACIÓN Y RESISTENCIA DE UNA MUJER NEGRA. Revista Binacional Brasil-Argentina: Diálogo entre as Ciências, v. 9, n. 1, p. 297–311, 2020. DOI: 10.22481/rbba.v9i1.6593. Disponível em:https://periodicos2.uesb.br/rbba/article/view/6593. Acesso em: 21 nov. 2025.

Esta publicação é uma parceria com o professor Vitor Cei. As resenhas foram selecionadas e revistas por ele a partir de produções na disciplina "Literatura do Espírito Santo", da qual é professor.

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