
Talvez, como se possível estabelecer uma espécie de verossimilhança com o tema Ensaio sobre a antropologia poética e pictórica de Friedrich Lichtsteiner, obra de Vitor Góes, resolvi escrever à mão e, obviamente, para entrar no clima, desenterrei minha caneta tinteiro da catacumba de minhas memórias. Aliás, o dramaturgo, escritor, enxadrista e artista plástico espanhol Fernando Arrabal cumpre nos afirmar que o poeta vive em catacumbas, um pouco próximo daquilo que nos dizia Platão, no capítulo sete de Alegoria da Caverna. Mas, nesse sentido, o poeta não está acorrentado e que, por isso, não se encontra limitado às projeções nas paredes da caverna, considerando que não reduzido à contemplação, ele vasculha, penetra e des-vela (num sentido quase heideggeriano) o que supostamente parece velado. O poeta busca a verdade, mesmo que nem sempre ou quase nunca a compreenda ou que a aceite como palavra final.
Assim é Vitor Góes, no Ensaio sobre a antropologia poética e pictórica de Friedrich Lichtsteiner, apalpando e vislumbrando os escritos e gravuras/fotografias de seu personagem, às vezes, enigmático e, por outras, demasiado humano. O que nos faz, de alguma maneira, encarnarmos Michel de Montaigne, o pai do ensaio como gênero literário, ao mesmo tempo e por isso mesmo, humanistas, irônicos e céticos.
Dessa forma, o Ensaio sobre a antropologia poética e pictórica de Friedrich Lichtsteiner, além do prazer da leitura nos proporciona lembrar, para os que conhecem, o melhor da literatura considerada universal e, para os que não a conhecem, provocar uma vontade de conhecê-la, tendo em vista que passeia por Boris Vian, Homero, Clarice Lispector, Jean-Paul Sartre, Friederick Nietzsche, Jacques Lacan, José Miguel Wisnick, Ítalo Calvino e tantos outros.
Tudo isso para colocar em questão a dicotomia entre a realidade e a imaginação, entendendo como realidade, não o absoluto, mas como aquilo que se realiza e, a imaginação, como a nossa capacidade de organizarmos a memória que se dá por imagens.
É praticamente impossível sintetizar numa ideial esse Ensaio sobre a antropologia poética e pictórica de Friedrich Lichtsteiner, levando em conta que Vitor Góes coloca cada leitor como um co-autor, na medida em que aquele que lê, necessariamente, escreve junto esse ensaio, a partir de seu paideuma ou o universo de sua vivência, sem esquecer que, na verdade, o "Ensaio..." trata-se de um "pluriverso".
Nessa ideia de "pluriverso", por uma parte, o leio como um patafísico, inclusive, por ter sido colocado como personagem na obra que, de algum modo, dialoga com a patafísica, entendendo-a, conforme Alfred Jarry, como "a ciência das soluções imaginárias, que concede simbolicamente aos delineamentos as propriedades dos objetos descritos por suas virtualidades", assim como, "é a ciência daquilo que se acrescenta à metafísica, seja nela mesmo, seja fora dela mesmo, estendendo-se tão longe para além desta como esta para além da física". Em suma, a patafísica trabalha com a lógica das exceções e, também por isso, precede o ser.
E por falar em patafísica, um elemento que me soou como muito interessante e que insere Vitor Góes nesse universo patafísico, foi sua iniciativa de eleger Luiz Almeida (complemento de seu nome) como tradutor, prefaciador, autor de notas e comentários de sua obra. Isso me remete ao meu amigo Eclair Antonio Almeida Filho, professor do Departamento de Francês da UnB - Universidade de Brasília, que criou o personagem Olegario Eudasio Barroso como tradutor do livro Gestas e Opiniões do Doutor Faustroll, Patafísico - romance neoscientífico, publicado pelas Edições Nephelibata.
Aviso aos navegantes: também faço uma leitura do Ensaio sobre a antropologia poética e pictórica de Friedrich Lichtsteiner como um estudioso, admirador e adepto do pânico (do deus Pan, da totalidade), movimento criado nos anos 60 por Fernando Arrabal, Alejandro Jodorowsky e Roland Topor. Trata-se de um olhar que contraria a lógica clássica e, ao mesmo tempo, a dialética, pois a base do pânico é a con-fusão, ou seja, as coisas mais díspares de nossa realidade (mesmo que aparentemente sejam antagônicas) não são mediadas ou orquestradas pelos princípios da identidade (lógica clássica) e, tampouco, pelos princípios da contradição (lógica dialética). O pânico se sustenta da fusão desses vários elementos, ora afastados, ora próximos, mas sempre respeitando seus antagonismos onde o amor, o humor, o ódio e tantos outros sentimentos humanos estão contidos em nossas vidas e mesmo nas vidas que independem de nós, inclusive, entendendo a vida como memória e o ser humano como acaso.
Confesso que Ensaio sobre a antropologia poética e pictórica de Friedrich Lichtsteiner é um livro que eu gostaria de ter escrito, mas também o tenho como “meu”, considerando acreditar que nós não pensamos, mas que o pensamento pensa-se a si mesmo. Assim, a maestria de Vitor Góes está nele se permitir a ser essa antena maravilhosa captando o conjunto de ideias que o mundo do pensamento tem produzido ao longo da história e, generosamente, nos brindando com essa pérola, até então, uma concha presa entra as rochas desconhecidas de uma ilha imaginária.
Enfim, ler Ensaio sobre a antropologia poética e pictórica de Friedrich Lichtsteiner é abrir um diálogo entre os que acreditam que tudo já foi escrito e os que resistem na ideia de que que tudo ainda precisa ser escrito ou reescrito. E, relembrando Frantz Fanon, Vitor Góes referenda a máxima de que "Cada geração deve descobrir sua missão e cumpri-la ou traí-la". E mais, se conforme Marshall Berman, "Tudo que é sólido desmancha no ar", em Vitor Góes, tudo o que é sólido desmancha no olhar.
