Poemas e traduções

Poemas brevíssimos

Como um navio
na tempestade,
considerar:
não cada onde,
isolada da outra,
mas todo o mar.

Viajante é também
aquele que sozinho
imagina o caminho.

Sabes? - perguntam-me, e não respondo,
pois, quanto mais a pergunta sondo,
mais a resposta eu acho vazia
entre o saber e a sabedoria.

Um grão de desconfiança
pode pôr a perder
montanhas de esperança.

Que faça cada qual
a sua parte
o melhor que puder,
já que a parte dos outros
ninguém pode fazer.

Para a edificação
de bens duráveis
usar
em vez do barro
da emoção
a pedra
da razão.

Publicados originalmente no jornal A ORDEM, ano LXI, São José do Calçado, domingo, 6 de dezembro de 1987, nº 2437.

Poemas brevíssimos

A sede como apenas um pretexto
para sentir nos lábios a pressão
do barro meu irmão:
a água na boca inventa uma cantiga
lembrando a furna antiga
e as mãos encantam-se a acariciar
a argila - na moringa - secular.

Vã conspiração de cílios.
Prematuros astros brilham.
Noite inaugural da ausência.

Vem de longe este horror
a qualquer barulhada:
aversão ao tambor
com sua alma de nada.

Um gato passeia
no piano aberto
e as teclas, se rindo
de cócega, inventam
canções de acordar.

Operário em frente à máquina
olha, apalpa - e compreende:
são irmãos.

No vão que vai
do amigo ao inimigo
sempre há de achar lugar
o não amigo nem inimigo.

Publicados originalmente no jornal A ORDEM, ano LXI, São José do Calçado, domingo, 10 de janeiro de 1988, nº 2441.

Poemas brevíssimos

Apenas a mão do vento
fria afagando os cabelos
verdes e duros das árvores;
de quando em vez um lamento
de pássaro em desespero
- gota de som no silêncio.

Adeus que sobrou:
alguém
corre e perde o trem
que não se atrasou.

Como dar um passo à frente
quem vive de pé atrás?

O mais sábio dos sábios,
o mais bem-informado,
é o que se sabe apenas
portador de um recado.

Só não sabe
dizer
com clareza
o que quer
quem não sabe
com clareza
o que quer
dizer.

No alto da jarra
azul mas pintada
a rosa de plástico;
no alto da moça
ocre mas pintada
a rosa do rosto.

Publicados originalmente no jornal A ORDEM, ano LXI, São José do Calçado, domingo, 17 de janeiro de 1988, nº 2442.

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Esta é uma publicação de cooperação entre o site Tertúlia e a Academia Calçadense de Letras.