Poemas e traduções

Pantum do carreiro

Atrás da junta de bois
vai meu carro cantador
e a um canto dele nós dois,
eu junto do meu amor.

Vai meu carro cantador
levando meu bem comigo;
eu junto do meu amor
nem vejo a estrada que sigo.

Levando meu bem comigo
vou descansado porque
nem vejo a estrada que sigo
mas sei que meu carro vê.

Vou descansado porque
mau caminho me incomoda
mas sei que meu carro vê
com seus óculos de roda.

Mau caminho me incomoda
mas meu carro escolhe o chão
com seus óculos de roda
abertos para a visão.

Mas meu carro escolhe o chão
cantando agora e depois,
abertos para a visão
também têm olhos os bois.

Cantando agora e depois
lá vai meu carro campista,
também têm olhos os bois
com toda a saudade à vista.

Lá vai meu carro campista
com seu chumaço de freixo,
com toda a saudade à vista
untando os cocões e o eixo.

Com seu chumaço de freixo
e o canto feito resina
untando os cocões e o eixo,
meu carro o que aprende ensina.

E o canto feito resina
cola no vento a lição:
meu carro o que aprende ensina
- ensina até a dizer não!

Cola no vento a lição
comprida além dos malhais,
ensina até a dizer não
quando a exigência é demais.

Comprida além dos malhais
cresce a tarefa ruim;
quando a exigência é demais
meu carro não canta assim.

Cresce a tarefa ruim,
os bois refugam a canga;
meu carro não canta assim
quando o motivo é de zanga.

Os bois refugam a canga
em torno do cabeçalho:
quando o motivo é de zanga,
detestam qualquer trabalho.

Em torno do cabeçalho
a cheda e o forro de vigas
detestam qualquer trabalho
se não em bases amigas.

A cheda e o forro de vigas
e as arreias e os fueiros,
se não em bases amigas,
são inimigos inteiros.

E as arreias e os fueiros,
tudo, fora o garruchão
- são inimigos inteiros
do trabalho sem razão.

Tudo, fora o garruchão:
com seu destino assim falho,
do trabalho sem razão
tira a razão do trabalho.

Com seu destino assim falho
faz um papel sem amor:
tira a razão do trabalho
a quem é trabalhador.

Faz um papel sem amor,
sem mudar o carro e os bois;
a quem é trabalhador
sobrará tempo depois.

Sem mudar o carro e os bois,
mudando só o tratamento,
sobrará tempo depois
a encher de cantos o vento.

Mudando só o tratamento,
volta meu carro a cantar
- a encher de cantos o vento
que não para no lugar.

Volta meu carro a cantar
e, em meu carro cantador
que não para no lugar,
eu junto do meu amor.

E em meu carro cantador
faremos silêncio a dois:
eu junto do meu amor,
atrás da junta de bois.

NOTA DO SITE: “Pantum” é um poema de forma fixa, com quadras entrelaçadas em que o segundo e o quarto versos se repetem na quadra seguinte na posição de primeiro e terceiro versos. Não importa qual extensão tenha o poema, o primeiro verso deve fechá-lo. É originário da Malásia.

Publicados originalmente no jornal A ORDEM, ano LXI, São José do Calçado, domingo, 27 de setembro de 1987, nº 2428.

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