Entrevista a Vitor Cei

Publicada em 9 de junho de 2026.

Desde 2022, você apresenta o videocast Vitrine Literária com Francisco Grijó, que vai ao ar na TV Vitória e no YouTube. No Instagram, você já fez uma série de entrevistas intitulada Livro Aberto. Depois de entrevistar mais de uma centena de pessoas, como avalia a importância do registro de conversas com escritores da atualidade?

A ideia inicial sempre foi a da divulgação. Considerei a ideia de que um bate-papo especificamente ligado à literatura - difusão, debate, considerações, crítica - pudesse ter uma funcionalidade também específica. Ou seja, levar aos possíveis leitores a obra literária de um determinado escritor ou escritora. A partir dessa ideia, criei, na rede social Instagram, o Livro Aberto, que consistia numa conversa informal, ao vivo, de 50 minutos, sobre a obra escrita de um(a) determinado(a) convidado(a). As conversas versavam sobre temática, estrutura textual, referências literárias, processo de escrita etc. A partir daí, fui convidado pela Rede Vitória para levar ao Youtube um videocast intitulado Vitrine Literária com Francisco Grijó, que está em sua 5ª temporada, e que é fundamentado na mesma ideia de difusão da produção literária. Há uma preferência pela literatura produzida no ES, com seus autores, obras e características, mas não somente. Aborda-se tudo o que é ligado à palavra escrita: da poesia tradicional ao rap; da crônica ao romance, passando pelo conto, pela novela, pela dramaturgia, pela crítica literária. Entrevisto poetas, escritores, críticos, bibliotecários, editores, professores, leitores, rappers, agentes literários etc. Sem contar que é uma fonte de pesquisa para interessados em literatura. Creio ser importante para estudantes, professores, pesquisadores, críticos, estudiosos.

Sua iniciação literária, segundo relato publicado na revista Fernão (n. 14, 2025), ocorreu em 1982, nas Oficinas Literárias oferecidas pela professora Deny Gomes, no curso de Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. Antes disso, como e quando a leitura e a literatura entraram em sua vida? E como define sua trajetória literária: houve um momento inaugural ou esse percurso se construiu gradualmente?

Tudo começou em 1982, quando eu cursava Letras, na UFES. Sim, participei da lendária Oficina Literária capitaneada pelas professoras Deny Gomes e Neida Lúcia Morais. Havia outros participantes que seguiram o caminho literário, como Paulo Sodré e Waldo Motta. Éramos - sem qualquer pretensão nisso - o embrião do que o professor e crítico Francisco Aurélio Ribeiro chamou de Geração de 80, embora houvesse gente como Marcos Tavares, Oscar Gama e Miguel Marvilla, já mais tarimbados e que iniciaram suas produções na década anterior, fazendo ótima literatura. O interesse pela literatura, claro, veio antes da escrita, e fui muito bem orientado por professoras, professores e amigos. Devo isso a eles, principalmente a Deny Gomes, Bernadette Lyra e Telma Boudou, cujas lições ainda latejam na minha cabeça. Eu não teria ido muito longe - se é que fui - sem a ajuda delas. Mantive-me na produção literária desde 1982, até publicar meu primeiro livro, uma coletânea de contos intitulada Diga adeus a Lorna Love, que venceu o prêmio Geraldo Costa Alves, em 1987. A premiação, além de uma soma em dinheiro, foi a publicação do livro, em parceria com uma editora carioca, Anima.

Em sua longa trajetória como professor de literatura brasileira e redação, tive o privilégio de ser seu aluno no extinto Colégio Nacional. Em 2021, você foi eleito membro da Academia Espírito-santense de Letras. Em que medida as trocas propiciadas nos espaços escolares e acadêmicos influenciam seu processo criativo e seu trabalho de escrita?

Influenciam pouco. O trabalho com literatura - atuando como professor - funciona, geralmente, como um limitador. Levar aos alunos características, autores, obras, períodos literários etc. têm serventia relativa na criação literária. O lado bom do processo está na possibilidade de apresentar aos alunos o que há de representativo na arte brasileira, em geral, e na literatura, em particular. Raramente escrevo sobre ser professor ou sobre a didática literária. Creio que nunca tenha escrito, na verdade. Quanto a estar na Academia, ser um membro dela, isso é uma consequência - não uma causa. Não me leva a escrever sobre o assunto, e as trocas de informação sobre textos e autores em nada diferem de trocar informações com outras pessoas: amigos, conhecidos, desconhecidos etc.

Você transita por diversas formas da prosa. Ao longo de quase quatro décadas de trajetória como escritor, inaugurada com o livro de contos Diga adeus a Lorna Love (Anima; FCAA, 1987), publicou uma dezena de livros, sem contar a sua participação em antologias coletivas: os volumes de contos Um outro país para Alice (FCAA, 1989), Licantropo e outras histórias (Flor&cultura, 2001) e Todas elas, agora (Cousa, 2013); os romances Com Viviane ao lado (Babel, 1995), Histórias curtas para Mariana M (Flor&cultura 2009), Fama Volat (Cândida, 2019) e Joukery-Pawkery: uma história da Fama Volat (Cândida, 2024); biografia em Os mamíferos: crônica biográfica de uma banda insular (Cousa, 2016); crônica em Doxa: brevíssimas opiniões não tão politicamente corretas sobre livros, cinema e música (Cândida, 2020). Como é seu processo criativo na escrita literária em cada gênero? Quais são as opções formais e temáticas que orientam seu método de escrita e seu projeto ético-estético?

Escrevo basicamente prosa, como você disse. Não sou poeta, não tenho como ser, já que observo a realidade - ou tento observá-la - de forma linear. A fragmentação do real é um privilégio de poucos, que conseguem transformar essa fragmentação em versos. Não é para mim, não tenho essa capacidade, e invejo quem a possui. Escrever não é fácil, embora me divirta muito criar personagens, tramas, cenários. Não tenho um modelo de processo criativo, creio eu. Apenas escrevo, após ter uma ideia e esboçar, em minha cabeça, como será o início de tudo. Depois, vou em frente, sempre escrevendo no período da madrugada, quando o silêncio é um ótimo auxiliar para a criação. Tento ser honesto com meu leitor (se é que ele existe), e essa honestidade tem origem no meu gosto pessoal. Em outras palavras: se eu aprecio o que escrevi, o leitor tem chances de também apreciar. Essa é minha ética. Certa vez um amigo me disse que escritores inteligentes criam textos inteligentes para pessoas idem. Tento pertencer a essa categoria.

Pai de quatro filhas, o leitmotiv (motivo condutor) de sua obra - ou ideia fixa, segundo Reinaldo Santos Neves no prefácio de Licantropo e outras histórias (2001) - é a mulher. Historicamente, observa-se o silenciamento das vozes e a repressão dos corpos das mulheres e de outras minorias. Como o machismo, a misoginia e outras formas de opressão presentes na sociedade impactam sua escrita?

As mulheres são realmente um tema central. Escrevi vários livros sobre esse universo, e me arrisquei, em alguns momentos, a encarar a voz feminina. O leitor e a leitora dirão se obtive sucesso. Minhas mulheres fictícias (Lorna Love, Alice, Viviane e tantas outras) movimentam-se no texto de acordo com minha vontade, e isso é, num certo sentido, machismo. A literatura brasileira é masculina, infelizmente. Poucas são as mulheres que obtiveram a oportunidade de expor seu trabalho, mas isso está mudando. Primeiro, porque as mulheres estão forçando as portas e janelas fechadas. Estão criando rachaduras e frestas e estão entrando no jogo na marra, mostrando que o texto literário (e a arte como um todo) independe o gênero. Não há uma literatura feminina, assim como não há uma literatura masculina, no sentido de que exista um tempero particular que as defina como distintas. Acostumamo-nos com um contingente maior de homens produzindo textos literários, mas isso é questão quantitativa, e não qualitativa. Há mais homens fazendo má literatura, se assim se pode dizer. Devo afirmar, contudo, que escrevo sobre mulheres não para defendê-las, mas porque gosto muito delas e com elas aprendo o suficiente.

Para quem você escreve? Considerando a maneira como elabora seu estilo e define a destinação de sua escrita, há um tipo de leitor específico ou um público-alvo ao qual seus trabalhos, como escritor, se dirigem? Além disso, como você compreende o contexto amplo de recepção de seus textos desde os anos 1980 - literário, cultural, intelectual, linguístico, socioeconômico e político?

De início, para mim, porque preciso apreciar o que escrevi. Se não apreciar, ao menos preciso não desaprovar a construção de uma personagem, a definição de um enredo, a descrição de um cenário e assim por diante. Quando me satisfaço, penso que posso satisfazer a um possível leitor. Acho que todo escritor que leve a sério a própria condição pensa assim. Ser lido é uma necessidade e uma consequência, mas o leitor está cada vez mais escasso, e a relação quem lê e quem escreve torna-se frágil. Como dizia meu amigo Marcos Tavares, o ótimo escritor e grande fraseur da literatura local: a relação com o leitor nem oral é. Creio que meu possível público-alvo sejam aquelas pessoas que curtem ouvir histórias e que apreciem tramas bem elaboradas e pouco óbvias. Tenho-me dedicado a criar textos que se aproximam da literatura policial adulta - algo pelo qual a intelligentsia e a academia torcem o nariz, considerando-a um gênero menor, subliterário. Meus últimos livros tiveram essa característica, e quem os leu percebeu que há uma tentativa de trabalhar mais meticulosamente as ideias, sem recorrer a elementos previsíveis e gratuitos. Ao menos é o que eu espero desse possível leitor.

Em nossa tradição literária regional, as representações do município de Vitória têm oscilado entre a imagem de uma “cidade-presépio” e a de uma metrópole poluída, habitada por personagens marginalizadas. Em sua obra, a cidade e seus locais são ficcionalizados com “os olhos fixos no real” (como disse na apresentação de Fama Volat), mas tomando liberdades que não são consentidas “nesta terrível realidade em que vivemos” (conforme a apresentação de Joukery-Pawkery). Como Vitória e a cultura capixaba afetam você e a sua literatura?

Vitória é a cidade que conheço, é o ambiente no qual nasci, cresci, estudei, fiz amigos, fiz inimigos, diverti-me, casei-me, tive filhas e no qual trabalho. Penso que fica mais fácil trabalhar assim. Embora alguns de meus textos possam ser transferidos para uma outra cidade, prefiro localizar o enredo e as personagens num ambiente no qual me reconheço. Vitória tem a vantagem de ser espacialmente pequena, o que permite ser um cenário em que todos os pontos possam se comunicar. Vai-se da zona sul à rica zona norte em 20 minutos, e é possível percorrer toda a ilha, de carro, em 1 hora. Isso facilita a escritura, já que o leitor vive também essa realidade. A verossimilhança se instaura quase que instantaneamente, e isso é um ponto positivo para a história que se conta. Sem contar que Vitória tem todos os vícios e todos os problemas das grandes cidades brasileiras - o que faz da frase de Tolstói fazer absoluto sentido. Ao mesmo tempo, permito-me fantasiar algumas situações em benefício da trama ou das personagens. É disso que vive um escritor. Quem tenta apresentar a realidade como ela é não é escritor, mas jornalista.

Nas entrevistas com escritores que venho realizando desde 2016, constata-se uma percepção quase unânime, entre cerca de quatro dezenas de autores residentes no estado, das dificuldades de circulação, distribuição e recepção de suas obras, bem como das barreiras para alcançar editoras e leitores dentro e fora do Espírito Santo. Diante desse circuito autor-obra-público e da chamada literaluta capixaba, o que você observa? E, nesse contexto, como avalia a recepção e o reconhecimento de sua própria obra?

Não é difícil somente para o autor capixaba. É difícil para todos aqueles que não têm um bom agente literário, que não têm amigos relevantes da imprensa e que não investem dinheiro em especialistas em redes sociais. Do Maranhão ao Rio Grande do Sul: todos reclamam. É preciso investir, e muito, num processo que vai levar o livro ao leitor. Sim, falo de dinheiro e de tempo. Escrever e ficar esperando que o leitor lhe venha beijar os pés é perda de tempo, porque ele não vem. É preciso ir até ele. Primeiro, claro, é preciso identificá-lo na multidão de fãs de youtubers, de tiktokers e de bobalhões do stand-up. Depois desse garimpo, como convencê-lo a despender tempo para ler um romance, um livro de contos, poemas, crônicas? O costume de leitura vem da família, passa pela escola e chega à juventude e à maturidade. Sem pais, mães e professores que valorizem o ato de ler as coisas ficam praticamente impossíveis. Sinceramente? Acho que até a igreja poderia entrar no jogo. Imagine um pastor ou um padre usando sua influência espiritual para sugerir a leitura deste ou daquele romance? Só a Bíblia não dá, por mais histórias que ela possua. Sim, a distribuição dos livros é o grande problema. Escrever e ler são atividades muito mais fáceis - mas fazer o texto chegar ao leitor, vencer todas as barreiras que provocam o desinteresse pela leitura é o grande desafio. Meus livros são razoavelmente conhecidos, mas não me iludo: são pouco lidos. Ser professor há mais de 40 anos, e de um nicho que habita muitos alunos, facilita a difusão. Vários livros meus esgotaram e estão em segundas edições.

O Espírito Santo e o Brasil, de modo geral, enfrentam o desafio da democratização do acesso à literatura e às artes, o que implica, por consequência, a necessidade de formar leitores. Considerando sua vasta experiência como professor, secretário de Cultura de Vitória (2016-2020), cronista no jornal A Gazeta (2011-2015) e apresentador dos programas Improvizzo (Rádio Espírito Santo 89.1 FM) e Vitrine Literária (TV Vitória), como avalia o papel das instituições públicas e privadas nessa tarefa educativa? Quais são os principais desafios para a formação de público, tanto no caso de escritores e artistas estreantes quanto no de veteranos?

Em tese, o poder público cuida da população, e há uma parcela dela - os artistas - que precisa de atenção. A literatura é a prima pobre das artes e, por conseguinte, aqueles que a consomem podem, muitas vezes, tornar-se invisíveis. Esses consumidores, chamados leitores, deveriam ser formados no interior da família, e desenvolvidos na escola. Eu já disse isso, e levo essa discussão, especificamente literária, ao poder público. Projetos que incluem desde o gosto pela leitura até a análise textual mais avançada podem, e devem, ser responsabilidade - também! - dos poderes municipais e estaduais. Aqui em Vitória há um projeto, já com mais de 30 anos de sucesso, intitulado Viagem pela Literatura, liderado pela incansável bibliotecária Elizete Caser. É um modelo a ser louvado e a ser copiado. Existem os editais de Cultura, que incluem, basicamente, a produção de livros, que precisam ser mais implementados, além de demandarem mais transparência. Os professores e professoras, a Academia de Letras, os escritores e escritoras, o pessoal da crítica, os e as jornalistas - todos podem colaborar fazendo o texto local (municipal e estadual) ser difundido, e levado a sério. No podcast Vitrine Literária com Francisco Grijó, do qual estou à frente, tem o objetivo de difundir e debater a produção literária e crítica locais, com honestidade e sem censura. Fui cronista de A Gazeta durante alguns anos, e sempre dediquei boa parte do conteúdo à literatura, sempre contando com a inteligência do leitor e com sua capacidade de discernimento. Era uma boa forma de debater os temas, mas, claro, nada se compara à velocidade da internet, ao bate-pronto da discussão, ao imediatismo da veiculação de ideias. O que os escritores esperam? Que haja leitores e que seus textos sejam difundidos, levados adiante. Ser aplaudido é muito bom, mas ser lido é melhor.

Você mantém perfis em redes sociais e o blogue Ipsis Litteris. Como avalia sua participação e a de outros escritores contemporâneos no ciberespaço? Que possibilidades e desafios as tecnologias digitais apresentam para a criação e a recepção de sua obra?

Blogues não serão extintos, mas estão cada vez mais fora de moda. Não são mais alvo, embora ainda haja alguns seguidores fiéis. É muito difícil lidar com a velocidade e com a cinemática das redes sociais. A Inteligência Artificial parece ter a pá e a cal para jogar sobre os blogueiros que lidam com a palavra, que elaboram textos, que veiculam ideias e inteligência. Esses são, hoje, pobres-diabos em busca de um leitor que admita perder tempo lendo textos no laptop ou no celular. Redes sociais como Tik Tok, Instagram, Twitter (agora, X) e Facebook comandam o espetáculo - e o que é pior: fazem a garotada entre 10 e 18 anos considerar os blogues algo tão antigo quanto o Código de Hamurábi. Em outras palavras, se não houver reação, e eu considero que ela seria inútil, teremos cada vez menos leitores de blogues. Eu continuo a manter o meu espaço, o Ipsis Litteris, no qual escrevo sobre livros, música, cinema, quadrinhos, política, arte plástica etc. Sinceramente? Escrevo para mim, e vou dormir rezando para que alguém apareça e comente sobre a postagem. Para um blogueiro, as redes sociais servem para divulgar seu trabalho, indicar o blogue, servem para tentar atiçar a curiosidade do possível leitor.

Diante do panorama da literatura atual - regional, nacional e internacional —, o que você observa? Quais escritores e escritoras você tem lido e com quem busca dialogar? Comente sobre suas principais inquietações e estímulos em relação à produção literária contemporânea.

O argentino Borges dizia que só se deveria ler livros escritos há mais de 100 anos. Talvez tivesse razão. Assim como seres humanos nascem de seres humanos, textos nascem de textos. Todos sabemos disso. Eu me mantenho lendo também os textos contemporâneos, mas cada vez menos levando-os a sério. Estou falando, evidentemente, sobre a literatura brasileira - da qual faço parte. Ainda prefiro ler Machado, Adolfo Caminha e Lima Barreto a ler esses novos autores abençoados pelas editoras, pelas redes sociais e pela mídia em geral. Prefiro, mas minha profissão não permite que eu fique alheio à literatura de Jeferson Tenório, Itamar Vieira Junior, Socorro Acioli, Carla Madeira. Para mim, quem sobressai é Conceição Evaristo, cujo texto é um aprendizado, em estrutura e em temática, para quem lê. É contundente e tem a honestidade dos grandes criadores - no caso dela, criadoras. Ao menos para mim. Tenho apreço pelos grandes romancistas modernos, como Graciliano e José Américo de Almeida. Acho Guimarães Rosa genial, mas chato. Gosto muito da literatura norte-americana do século XX, de John dos Passos a Robert Coover, passando por Pynchon, Barthelme, Barth, Salinger e Vonnegut. Esse último é meu ídolo literário. Gosto de alguns africanos, de alguns europeus e, claro, dos ibero-americanos, como Cabrera Infante, Borges, Cortázar, Arlt, Carpentier, Lezama Lima, Donoso e Roa Bastos. E gosto bastante de poesia, e aí o papo toma outro rumo: o Brasil produziu grandes poetas. De Gregório a Leminski. Como eu disse no começo: textos nascem de textos, de modo que tento - nem sempre com sucesso - dialogar com esses que citei. E com muitos que não citei.

Nos últimos anos, a crescente polarização política na sociedade brasileira tem intensificado debates sobre o lugar da arte, com destaque para forças interessadas em controlar e censurar manifestações artísticas e culturais. Nesse contexto, observa-se uma série de violações ao direito à literatura e à democratização do acesso à leitura literária. Como você avalia esse cenário? E quais são suas expectativas quanto ao desfecho do atual estágio político e cultural do Brasil e do mundo?

Não somente a literatura sofreu, nos últimos tempos, com censura, desmando, ignorância, truculência e desprezo. A arte em geral sofreu abusos, foi vilipendiada, foi atingida como só foi no período truculento da antidemocracia: os anos de chumbo, em particular; e o governo militar, em geral. Nos últimos anos, durante o governo Bolsonaro - página infeliz da nossa História, como diz meu xará -, a coisa piorou, porque houve o apoio de boa parte da população no que diz respeito a controlar e a demonizar a produção artística. Legitimaram-se a truculência, o desaforo e a violência. Ler tornou-se esnobismo e blasfêmia. Professores foram taxados de doutrinadores de um culto satânico e aqueles textos que discutiam cidadania, direitos dos vulneráveis, diversidade de gênero e etnia foram vistos - e ainda são - como perigosos e abusivos. É uma tentativa de retorno à Idade Média, como a diferença de que há uma reação por parte da população, que não se curva diante de fundamentalistas e de amantes do totalitarismo. Não vejo muita saída para essa falsa polarização. Chamo de falsa porque imagino que polarização implique debate de ideias, e um dos lados não sabe debater, justamente porque não se dá bem com as ideias. Creio, por isso, que esse estado de coisas vai-se manter, e precisamos - artistas ou não - saber lidar com isso. Resistindo e tentando, democraticamente, levar adiante ideias que possam transformar essa realidade. Esse é o papel do artista. É o papel do escritor.

Entrevista concedida a Vitor Cei em 4 de maio de 2026.

Francisco Grijó nasceu em Vitória (ES), em 1962, onde vive.

Referências

GRIJÓ, Francisco. Diga adeus a Lorna Love: contos. Rio de Janeiro: Anima; Vitória, ES: Fundação Ceciliano Abel de Almeida/UFES, 1987.

GRIJÓ, Francisco. Um outro país para Alice. Vitória, ES: Fundação Ceciliano Abel de Almeida/UFES 1989.

GRIJÓ, Francisco. Licantropo e outras histórias. Vitória: Flor&cultura, 2001.

GRIJÓ, Francisco. Todas elas, agora. Vitória: Cousa, 2013.

GRIJÓ, Francisco. Com Viviane ao lado. Babel, 1995.

GRIJÓ, Francisco. Histórias curtas para Mariana M. Vitória: Flor&cultura 2009.

GRIJÓ, Francisco. Os mamíferos: crônica biográfica de uma banda insular. Vitória: Cousa, 2016.

GRIJÓ, Francisco. Fama Volat. Vitória: Cândida, 2019.

GRIJÓ, Francisco. Doxa: brevíssimas opiniões não tão politicamente corretas sobre livros, cinema e música. Vitória: Cândida, 2020.

GRIJÓ, Francisco. Joukery-Pawkery: uma história da Fama Volat. Vitória: Cândida, 2024.

 

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