No café da manhã

Há três manchas de sol no quintal. O dia esplende e despeja aqui sua luz. Passarinhos interrompem a costumeira e frenética busca por comida e a substituem por um instante de contemplação.  É o que se vê daqui: um pardal estica as pernas e as asas em leque para que um pouco da mancha de sol possa entrar em suas penas e na fina camada de pele de suas perninhas descarnadas. Um pardal mais saliente salta da beira do canteiro e vai beber água na tigela do cachorro. Bebe demoradamente. Depois, resolve entrar na própria tigela para tomar um banho. Imprudência, porque o cachorro, deitado numa das manchas de sol, abre um olho na inspeção rotineira de seus domínios sempre ameaçados por invasores reais ou imaginários. Esses impertinentes bichos alados, agora, são uma chateação real, embora o cachorro não se anime a levantar-se. Ele, o cachorro, já tem outro problema quanto à soberania quintalesca. É que também habita aquelas terras outro cão de raça indefinida, embora tendendo para o poodle. Ou seja, essa praga que invade o bairro todo e, pior, mostrando que se trata de uma raça (admite ele, mas não publicamente) dotada de maior inteligência do que a dele, o Schnauzer, que olha o passarinho tomando banho na tigela. O Schnauzer resolve não se levantar e, mesmo, fecha o olho em definitivo. Vai dormir mais. O sol está gostoso e, afinal, o passarinho não vai tomar ou jogar fora a água toda. Talvez fosse o caso de uma intervenção, um simples latido de alarme do “quase poodle” a propósito desses abusos cada vez mais frequentes dos chatinhos de asa. Que é preciso dar um basta, sem dúvida, mas, também, tudo ele? Ele que sempre precisa correr com os passarinhos do quintal? E o outro? O inteligente? O que faz pose de intelectual. Como aconteceu no caso do queijo. Acho que ninguém desgosta de queijo. Gosto como qualquer um. Por exemplo, há um queijo fabricado nas montanhas próximas, que é uma delícia muito deliciosa. Meus donos repetem sempre isto quando estão tomando café na varanda. Concordo com eles. Para dizer que quero queijo, fico dando pulos maiores do que os dou normalmente para demonstrar que estou satisfeito ou que quero mais de certa comida. Pulo mesmo e isso até me dá muita alegria quando me chamam de canguru, que não sei que bicho que é, mas como sei que meus donos gostam tanto de mim quanto eu deles, deve ser um bicho bonito e bom. Já aí quando dou os meus saltos o poodle me olha meio de lado como se eu estivesse fazendo papel de palhaço. Bom, mas e o queijo? Naquele dia fazia um sol assim como hoje, meus donos estavam alegres e riam muito enquanto tomavam o café da manhã. Havia um queijo na mesa e era só esperar que, logo, ele e mais o famigerado receberiam seus pedaços. Como de fato aconteceu. Logo na primeira dentada vi que o queijo que eles nos deram não era o das montanhas, mas outro cheio de veiazinhas verdes e com cheiro (me desculpem meus donos) de podre. Não quis comer. O poodle? O metido a francês?  Comeu, repetiu e ficou me olhando com aquele olhar superior como se o queijo fosse uma delícia e não estivesse estragado. Enfim, o besta era eu. Por isso, por agora, deixa esses passarinhos por aí derrubando a água de beber porque o trabalho de guarda do quintal não pode ficar só nas minhas costas.

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O café acabou de chegar. A cesta de pães exibe unidades exemplarmente panificadas. É o superlativo encontrado para esses pães dourados recém-saídos do forno da padaria, modelos de notáveis qualidades “bonnardianas”. O pote cheio de manteiga é uma espécie de úbere amarelo com a reluzente faca ao lado que parece ansiosa para entrar em serviço a fim de untar os belos pães.

 

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