
É primavera; ainda assim, as folhas caem. Ouço, distante, a música que me entretém do aborrecimento das buzinas e do trânsito. Olho ao redor e nada vejo que me traga alento para as preocupações que há algum tempo me acompanham. Enquanto aguardo em meio à lentidão dos carros e à repentina chuva que cai, fustigando os pedestres que correm apressadamente em busca de abrigo, penso na minha própria inércia, que rouba dia a dia os meus acalentados sonhos. Penso nos acontecimentos que agitam o mundo num turbilhão de conflitos e ameaças de devastação e morte e me indago sobre as escolhas que fazemos, sobre a efemeridade das coisas e a passagem do tempo. Meditativa, uma vez mais constato nossa vã tentativa de adiamento, do que quer que seja. Uma vez mais tenho adiado aquela boa e necessária conversa com meus filhos a pretexto de manter a paz familiar. Face às diferenças, principalmente em tempos tão incertos, calamo-nos todos num pacto de presumida harmonia. Saber-me omissa dói. Enquanto isso o tempo passa.
O desejo, porém, insiste. E cada vez mais eu me flagro diante da inquietante indagação humana, em todos os tempos: face à matéria vida ser tão fina, qual a razão da existência? Tão clara e tão simples é a pergunta do poeta: “Existirmos: a que será que se destina?” Quem de nós se atreve a respondê-la? Sem resposta, sigo adiante guiada pela saudade de meu pai. A imagem nítida de seu olhar terno traz-me de volta o passado do que poderia ter sido, e não foi, dos abraços que lhe dei e de tantos outros que eu gostaria de ter-lhe dado e que não dei, das palavras que não foram ditas, do silêncio loquaz em companhia dos livros: momentos feitos de respeito e admiração. Somente hoje descubro, tardiamente, a grandeza e a presença de meu pai. Somente hoje compreendo uma vida feita de gesto e atitude, de compromisso com a palavra. Nada disso posso mais lhe dizer. Por isso escrevo.
O sol reaparece. Aquela nuvem se desfez. Meu pensamento agora me traz de volta outras lembranças, cuja força se imprime na vívida alegria de ver e estar com bons velhos amigos. Trago de volta à lembrança doce tarde passada ali à beira do rio, próximo à foz, onde nós, três amigos, contemplamos a restinga, o mar, os pescadores, as gaivotas, as ruazinhas de paralelepípedo, as casas com varanda, os jardins, as buganvílias espalhadas em flor nos caramanchões, o sol e os pássaros a se recolherem no fim de uma tarde fugaz. Dada a celeridade do tempo, cada vez mais lembrar é o que me constitui. Revivo ao lembrar. Por isso, repito, escrevo. Para lembrar que existo. Sou, quando lembro e escrevo. E a memória é, essencialmente, o registro e essa expansão de quem somos e como somos, que organiza e conta a multíplice história de homens, sociedades, culturas. É nos desvãos da memória que nos encontramos no âmago de nossa precária existência e descobrimos quão trágica ou única e bela ela pode ser. Esquecida na estante, a dialética do esclarecimento vem em meu encalço e me adverte que, em tempos cada vez mais incertos, não se deve jamais descuidar da força das mistificações. A vida está aí, à flor da pele.
