Páginas de uma bibliotecária

Marli Rodrigues Coppo

Histórias da velha Kombi

A Biblioteca Pública Estadual possuía uma Kombi doada pelo INL, que já estava muito velha, mas eu viajava com ela mesmo assim. Na maioria das vezes, ela quebrava, aí, eu tinha que arranjar carona com os colegas de outra secretaria.

Foram muitas as vezes em que viajamos para os municípios com a Kombi velha e os guardas federais nos pararam, falando: “O carro está preso.” E eu pedia, quase chorava com os policiais para nos liberarem. Aí, eles ficavam com pena e mandavam esperar um pouco que depois poderíamos seguir em frente.

Um episódio que me marcou muito aconteceu no Município de Muqui, quando era motorista o Senhor Josimar da Silva Almeida. Confesso que tive medo de ir na Kombi, fui de ônibus, porque a Kombi já apresentava defeitos. Como sempre, ela conseguiu chegar, mas, na volta, quebrou na estrada. Para trazê-la até Vitória foi a maior dificuldade e eu é que ia à Secretaria cobrar do subsecretário. Mas tudo acabou dando certo.

Na maioria das vezes, eu é que levava os galões de gasolina, chegava no município cheirando toda a gasolina, passando mal. Neste, nós saímos na quinta-feira e só chegamos sábado à noite!

Quando eu estava trabalhando no mutirão de Itanhenga I (Cariacica), o governador Vítor Buaiz passou visitando as barracas e viu nossa Kombi velha rodeada de crianças. Ficou comovido, me chamou, me parabenizou pelo trabalho e falou que ia arrumar um carro novo.

E em todos os mutirões eu cobrava: “E aí, governador, tá lembrando da promessa?” E ele falava que não me esqueceu.

Até que, um belo dia, ele falou que o carro tinha chegado, era uma Besta novinha! (fotos ao lado) Aí, vocês não podem nem imaginar a alegria em que fiquei! E foi a maior festa! O governador veio à Biblioteca Pública Estadual entregar o carro pessoalmente!

Foi muito bom cumprir meu dever! Conheci a realidade das Bibliotecas Municipais e suas dificuldades. Concluí que quase todas não contavam com verbas para compra de acervos e manutenção e que algumas eram mesmo muitíssimo precárias.

Nos presídios

Presídio Feminino

O primeiro presídio em que trabalhei foi o que funcionava na Praia do Canto. Esta experiência profissional me revelou as múltiplas dificuldades para quem quer proporcionar oportunidades de leitura e outras informações às mulheres que se encontram à espera de julgamento.

Entre estas dificuldades, a principal, que desencadeia todas as outras, é a inoperância do Sistema Penitenciário para resgatar indivíduos, que, nos Presídios Femininos, são mulheres pobres e de baixa escolaridade, marginalizadas dentro da sociedade capitalista.

Quando entrei no Presídio, confesso que tive medo. Mesmo assim, enfrentei o desafio e saí perguntando se havia Biblioteca. Foi uma experiência diferente de todas que tinha visto até então, por trabalhar com mulheres que estavam cumprindo penas por determinação da Justiça.

No primeiro dia, nosso grupo foi apresentado a elas. Eu comecei a falar do meu trabalho, da finalidade de estar ali. Um professor de dança que estava junto comigo também explicou seu trabalho.

A segunda visita foi um bate-papo. Perguntei se elas gostavam de ler, quis saber os nomes delas, que tipo de leitura preferiam. Fiz um questionário para saber um pouco sobre elas em relação a leitura e suas vidas, quem eram, se já leram alguma coisa, quais as suas preferências, o que gostariam que levasse para elas. De cara, me pediram o Código Penal, de que eu não tinha uma versão atualizada, mas levei a que tinha.

A partir daí, comecei a procurar as informações que elas me solicitavam – e é lógico que incluí literatura. Tudo que levava era doação de terceiros que chegavam à Biblioteca.

Fiquei amiga do dono de uma banca, que passou a doar várias publicações que não vendia, das quais retirava a capa. Eu levava e emprestava às presidiárias, junto com os livros.

Toda quarta-feira eu ia ao Presídio, fazia palestras sobre os livros, falava da importância e perguntava do que elas mais gostaram, para ver se elas estavam lendo mesmo.

Foi um trabalho diferente, confesso que gostei, foram vários relatos, conheci pessoas diferentes, outro tipo de vida, outras histórias, ganhei presentes. Houve até umas que queriam passar o final de semana comigo. Saí convencida de que quase todas eram inocentes.

Casa de Detenção

Foi outra experiência que marcou a minha vida, na época do Governo Max Mauro. No primeiro dia em que fomos ao Presídio, éramos vários profissionais: uma assistente social, um professor de dança, artesanato e teatro, uma bibliotecária e uma auxiliar.

Neste mesmo dia fomos apresentados ao diretor do Presídio, que nos levou ate as celas para conhecermos os presos. Foi aí que tive a oportunidade de ver como funciona o esquema uma sociedade de desigualdade que nos faz refletir o que o sistema prisional tem a oferecer ao encarcerado.

Nesse dia conheci todo tipo de droga, de baseado a cocaína em pasta, porque os guardas estavam fazendo uma revista nas celas, em busca de armas e drogas. Por este motivo, os presidiários estavam muito agitados.

Apresentamo-nos e cada profissional falou do seu trabalho. Eu falei que o meu papel era levar informações e montar uma Biblioteca na Detenção; eles ouviram e gostaram da ideia.

Na outra visita, foi-me apresentado um espaço, muito pequeno, cheios de livros velhos, jogados e mofados. Depois, o diretor me deu um reeducando para ajudar na organização e tomar conta da Biblioteca e começamos os trabalhos.

Fizemos uma triagem, para ver o que podia se aproveitado. Conseguimos aproveitar alguns livros, fiz campanha e apareceram muitas doações espontâneas na Biblioteca Pública Estadual.

Depois, comecei a treinar o reeducando para emprestar e atender dentro da Biblioteca. Mas, um belo dia, os presos ficaram com ciúmes, deram uma surra no rapaz e quase o mataram. Imagina minha situação! Tomei um susto muito grande, mas consegui contornar a situação e as coisas voltaram ao normal.

Às vezes, nas visitas que fazíamos, nos juntávamos aos presos, porque eles nos convidavam, inclusive para comer com eles, e às vezes falavam que nós estávamos com nojo. De fato, naquele feijão que eles comiam eu cheguei a ver uns bichinhos e havia bife de fígado, entre outras coisas que meu paladar não aprecia.

Mas valeu a experiência, aprendi muito e conheci um mundo até então completamente desconhecido para mim!

 

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