Aquele jogo da seleção capixaba

Mas, e as glórias? Será que não existiram? Preciso avisar que estas recordações coincidem com uma fase de grande crise no futebol capixaba. Foi a época em que o Rio Branco ficou sem o Estádio Governador Bley e teve até que mudar de nome, passando a chamar-se Riobranquinho, vejam só. Voltou a chamar-se Rio Branco A. C. alguns anos depois, quando também pôde reaver o Estádio, construído com muito sacrifício pelos associados daquele tempo. É verdade que no período em que assistia a futebol em Vitória, entre os anos quarenta e sessenta, falava-se de uma época anterior muito feliz de nosso futebol. Não sei se se trata de referências às invariáveis idades de ouro da história de todos os povos e que correspondem apenas a uma conhecida necessidade psicológica, sem relação com os fatos. Não sei. Falava-se de muitas glórias e de grandes craques. Não duvido. Apenas não sei. Limito-me a escavar as glórias do meu próprio tempo como espectador. Talvez não muito retumbantes. Mas são as que a memória torna disponíveis.

Naquele dia aguardávamos ansiosos o trompete do Harry James que anunciava o programa “Focalizando os Desportos” na Rádio Espírito Santo. Um programa apresentado pelo Mickey, dublê do jogador Darly, excelente meia-esquerda do escrete capixaba. Aguardávamos a descrição da façanha de nosso selecionado em terras estranhas onde havíamos derrotado o time dos temíveis papa-goiabas, os fluminenses. Adolescentes ilhados em Vitória, imaginávamos esses papa-goiabas travestidos de ferrabrases então subjugados pela perícia de nossos craques. Ainda mais, esses nossos inimigos, ora derrotados pelo arrasador placar de 2 x 1, moravam em Niterói, uma cidade que, em nossa imaginação, aparecia como uma espécie de Nova Iorque. Claro, esses nossos adversários deviam viver como nababos naqueles arranha-céus que seriam gigantescos. Não trabalhavam. Viviam de jogar futebol, o que na época não era nada recomendável. “Nossos rapazes”, como eram chamados pela imprensa, nossos humildes rapazes, ao contrário, não eram assim. Trabalhavam de sol a sol. Treinavam ao clarear do dia para pegar no batente às oito da manhã. Mesmo assim, nossos heroicos rapazes haviam infligido essa acachapante derrota aos nababos fluminenses, desprezíveis profissionais da bola. Argh.

No domingo seguinte, seria a revanche no Estádio Governador Bley. Para os  papadores de goiaba, bem entendido.

E o domingo veio. Estádio repleto. O orgulho da terra pelo seu escrete explodia nos risos de todos, sentíamo-nos mais conterrâneos do que nunca.

Entra em campo a representação fluminense.

“Papa-goiaba”, “Papa-goiaba”... nós, da camisa 12, procurávamos fazer a nossa parte a fim de minar a autoestima dos inimigos. Afinal, ali estavam os ferrabrases, os argentários, pretendendo vingar a derrota que lhes impusemos em seus próprios domínios. Pois sim. No calor das manifestações das hostilidades – uma hostilidade esportiva, e os aficionados sabem do que estou falando – fazíamos espaço para observações. Para falar a verdade, a maioria daqueles jogadores era de estatura bem menor do que imaginávamos e ao invés de bíceps hercúleos muitos deles traziam a marca de um quase raquitismo. Não importava. Eram nossos inimigos e seriam massacrados (na bola, é claro).

Uma figura se destacava entre eles. Era um jogador depois identificado com Cliveraldo, ponta -esquerda do selecionado fluminense. Para espanto de todos, esse jogador tinha entrado em campo simplesmente com a perna esquerda totalmente enfaixada em gaze.

O que foi, o que não foi. Ficou-se sabendo que o jogador havia se machucado no jogo anterior com o nosso escrete. Imediatamente formou-se um consenso de que a contusão havia sido acidental porque “nossos rapazes” seriam incapazes de machucar alguém de propósito. Isto é, numa fração de minuto, todo o estádio, embora sem informações prévias, concluiu que a contusão se dera num lance da maior casualidade. Ora, se assim era, pensando bem, aquilo até que representava uma vantagem para nós. Não sendo culpados pela contusão, só nos restava aceitar a vantagem inesperada. Ia acontecendo isso no jogo. Até os trinta minutos do segundo tempo, Cliveraldo, o ponta-esquerda de perna enfaixada, cumpria o seu papel de inválido com espaço privilegiado para assistir ao jogo. Arrastava-se pela extrema esquerda do campo como uma tartaruga conformada. Mas por volta dos trinta e cinco minutos do segundo tempo, a tartaruga vestiu uma roupa de lebre e todos nós prendemos a respiração porque ia se materializando uma leve suspeita que, desde o princípio, nos incomodava: aquela faixa na perna não seria mero embuste, um truque, para nos enganar, uma traição ignominiosa? Cliveraldo corria pela ponta como se tivesse nos pés as asas de um lépido Mercúrio. “Infame, traidor”, era um pensamento tão unânime na arquibancada que quase podia ser tocado com as mãos. Nos segundos em que tais coisas aconteciam, Cliveraldo acelerava mais a corrida com a bola dominada até que do bico da área desfechou um canhonaço histórico. A bola-bala descreve uma curta e descabida parábola e, em cima do gol, caprichosa, despenca como uma folha seca. Goleiro batido, já que havia se jogado para o canto errado, enganado pela trajetória da bola temperada com um veneno mortal (também não sei se o chute saiu assim por acaso), só nos restava erguer lamentos aos céus. Mas não foi nada disso. No último instante, como se também estivesse revoltado contra as transgressões à lei da Física perpetradas pelo chute que muitos diriam desengonçado, mas nós considerávamos traiçoeiro, apareceu, não sei como, o ângulo de junção das traves do canto direito que deu um quique na bola jogando-a pela linha de fundo.

Perplexos e felizes vimos a bola morrendo no fundo do campo, talvez aliviada por não participar daquele conluio com o falso inválido. Falso? Talvez não fosse fingimento porque após aquela corrida que durou alguns segundos, mas para nós teve a duração de um século, o Cliveraldo caiu pela lateral do campo e parecia, como se ouviu, “completamente falecido“. Os dirigentes do selecionado fluminense foram até lá e trouxeram o Cliveraldo nas costas porque naquele tempo ainda não era usada a maca. Nova farsa? Tivemos a certeza que não, porque dali a poucos minutos o jogo acabava com nossa vitória por um a zero. Foi assim que, com duas vitórias consecutivas, eliminamos os terríveis papa-goiabas, aqueles que viviam à tripa forra, ganhando salários astronômicos e morando em arranha-céus de luxo, como era maquinado pela nossa fértil imaginação. A comemoração varou a madrugada e os bares do Guaracy e do Heráclito, em Jucutuquara, venderam cerveja como nunca.

No mês seguinte o Vitória contratou o ponta-direita desse mesmo selecionado fluminense, de nome Heitor. A partir daí fomos obrigados a fazer uma revisão histórica, como está em moda hoje em dia. Heitor, ex-atacante do facinoroso escrete fluminense, na verdade, em sua identidade secreta, era uma excelente pessoa que se casou com uma moça de Jucutuquara onde foi morar, na rua Augusto Calmon, e passou a fazer parte de nosso grupo que ficava batendo papo na beira da antiga vala até altas horas da noite. Claro que durante algum tempo foi obrigado a aguentar nossas brincadeiras mas a tudo respondia com sorrisos e uma calma de sábio.

Não demorou a ser um dos nossos.

 

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© 2015 Ivan Anacleto Lorenzoni Borgo. Publicado mediante autorização