Meu (re)encontro com Calçado

Geir Campos

Sempre ouvi dizer que eu havia nascido num domingo de Carnaval. E no ano em que eu ia fazer 45 (quarenta e cinco) anos de idade, o dia do meu aniversário “cairia” num domingo, e de Carnaval; por isso, achei que valia a pena eu ir naquele ano a Calçado, passar lá meu aniversário, etc... Uma jornalista minha amiga, que na ocasião estava fazendo comigo uma espécie de reportagem, ouviu de mim a confissão desse projeto, convidei-a a ir comigo e ela aceitou e fomos. Ela levou, emprestada pelo jornal em que trabalhava, uma máquina fotográfica Pentax, cujo manejo não dominava muito bem, nem eu, e fomos.

Chegamos a Calçado numa tarde meio quente e lá procurei pelo tabelião “seu” Héber – que tinha sido aluno de minha mãe, a professora Nair Nuffer. Indicaram-me com facilidade a casa onde morava “o Héber” e para lá nos dirigimos. Antes de entrarmos na casa, vimos uma moça dando banho num “fusca”, à porta de uma garagem doméstica: era Norminha. Apresentei-me. E apresentei a jornalista que me acompanhava. Norminha nos recebeu com aquele sorriso aberto. E em poucos minutos estávamos todos na sala de visitas de Héber e Arlete. Pouco depois chegava o então prefeito José Borges. E a simpatia multiplicou-se pelo número dos calçadenses presentes. Daí a pouco saiu José Borges, e me lembro de que fiquei meio encabulado quando o serviço de som da prefeitura anunciou, para toda a cidade ouvir (não sei se todos ouviram, ou, se ouviram, se prestaram maior atenção) que estava na cidade o poeta calçadense, etc.

Eu tinha então dois sonhos mais ou menos repetidos: num deles eu me via tomando banho, muito criança, numa bica de rua, e no outro sonho eu me via descendo uma longa escada íngreme, mas não pelos degraus... Contei ao bom Héber meus dois sonhos e ele comentou que talvez fossem, sim, reminiscências de minha infância distante, época, dizia ele, em que havia “uma biquinha”, perto da rua e perto do rio, onde era bem possível que meu pai me levasse, em dias de muito calor, para ali me dar banho embaixo da torneira aberta. Quanto à escada, “seu” Héber dizia que talvez fosse a do sobrado onde meus pais então residiam, perto do colégio primário, no outro lado da praça, um sobradinho pintado de azul onde também funcionava o Fórum de Calçado. Por via das dúvidas, “seu” Héber achou que devia ir comigo ao local da antiga “biquinha” (que já não existe mais) e ao dito sobrado. Ao sobrado acompanhou-nos a professora Nádia, que também dizia ter sido aluna de “dona Nair”, minha mãe – e a professora Nádia contou-me uma coisa da qual eu absolutamente não me lembrava, que parecia coincidir perfeitamente com meus sonhos de descer a escada, mas “não pelos degraus”. De cada lado da escada íngreme havia uma tábua larga, e por uma daquelas tábuas eu gostava de escorregar, do alto da escada, indo parar lá embaixo, onde me recebiam os braços prestimosos das então alunas de minha mãe.

Depois dessas duas explicações – a da “biquinha” e a da escada – nunca mais voltei a ter os tais sonhos, que antes se repetiam tantas vezes e que eu antes não tinha como decifrar.

Mais algumas vezes voltei a Calçado: numa dessas vezes cheguei a sugerir ao então prefeito José Borges que fundasse em Calçado um teatro ao ar livre, aproveitando o canto de alguma colina (coisa que não falta em Calçado) e ali construindo um teatro à maneira greco-romana, etc. Jorge Borges tinha então disponíveis, ao que me dizia, não sei quanto paralelepípedos de granito – que depois foram empregados (a meu ver, bem) na construção da Divineia – e parecia disposto a usá-los na edificação das arquibancadas do tal teatro ao ar livre, uma espécie de grande arena. Naquela ocasião eu estava fazendo no Rio meu curso de Direção Teatral, no qual enfim vim a me bacharelar, sendo esse o meu curso de graduação universitária: e tinha eu, entre minhas colegas de turma, uma mais chegada, a quem convidei para ir comigo a Calçado, e ela aceitou, e fomos.

Tempos depois voltei a Calçado com meus dois filhos, Carlos e Mauro: os dois “esbaldaram-se”, como se diz. Eram dois “pães”, como se dizia na época, e fizeram grande sucesso.

Sempre que eu ia a Calçado, aceitava a hospitalidade generosa do casal Héber/Arlete, já que Calçado não tem hotel nem pensão onde eu me pudesse hospedar, etc. Devo assim a “seu” Héber e a “dona” Arlete uma porção de agradecimentos, é claro.

Voltei ainda a Calçado, por algumas horas diurnas, recentemente, com Dora Sodré, filha do almirante Benjamin Sodré – para os que não o conhecem como “o Velho Lobo” dos escoteiros do Brasil: foi o jogador de futebol Mimi, do Botafogo Futebol Clube, do qual foi ele um dos fundadores, ainda no tempo do futebol amador...

Volto este ano a Calçado por ocasião da 4ª (quarta) Festa do Calçadense Ausente, a convite do Clic, ocasião em que, aceitando a sugestão de quem fez o convite, farei o lançamento de um de meus livros, as Estórias pitorescas da história do Brasil, um livro paradidático, como se diz, que escrevi para leitores infantojuvenis, mas que pode muito bem ser lido – e até “apreciado” – por leitores de mais idade.

 

Publicado originalmente no jornal A ORDEM, ano LXII, São José do Calçado, domingo, 25 de setembro de 1988, nº 2.475. A fotografia que ilustra esta publicação foi gentilmente cedida por Norma Vieira, a “Norminha”, aí com o poeta calçadense.

 

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Esta é uma publicação de cooperação entre o site Tertúlia e a Academia Calçadense de Letras.